A ONU premia jovens argentinos que buscam transformar a cadeia de preços dos alimentos
Miguel e Mónica se levantavam tão cedo que o sol ainda nem despontava na propriedade de seis hectares em Maipú, Mendoza. Ansiosos para ver a colheita de damascos florescer, caminhavam com passos triunfantes em busca de…
Publicada em Clarín em 22 de setembro de 2021

Miguel e Mónica se levantavam tão cedo que o sol ainda nem despontava na propriedade de seis hectares em Maipú, Mendoza. Ansiosos para ver a colheita de damascos florescer, caminhavam com passos triunfantes em busca dos frutos maduros depois de um ano de trabalho. No entanto, aquela última etapa produtiva sempre era a batalha mais dura, porque antecipava outra decepção: a amargura de novembro na hora de vender os produtos.
Às mãos trabalhadoras de Miguel e Mónica chegariam apenas $2 pesos dos $20 pelos quais o quilo era vendido nos mercados, com as típicas placas de oferta. “Essa remuneração justifica o esforço do ano no campo?”, perguntavam-se, angustiados.
É que, com muito trabalho, superaram obstáculos: da falta de água pela crise hídrica, dois anos de geadas sem colheita e a quebra do trator até a espera de duas décadas para que surgissem as frutas alaranjadas. E tudo para receber uma renda que não tem relação com o preço final.
Mendoza. Miguel lavrando suas terras. Ele é o pai de Fernanda Bonesso, a criadora da Agrojusto que foi premiada pela ONU.
Esta é uma das tantas histórias das pequenas famílias agricultoras da região, das quais provêm 70% dos produtos de consumo e 40% do PIB, e que recebem apenas 25% do que o consumidor paga.
Fernanda Bonesso (34) é filha de Miguel e Mónica. E, com seu olhar de economista, decidiu colocar à prova o sistema alimentar e buscou uma solução para esse mercado insustentável.
Assim, no fim de 2018, recrutou jovens talentos de diferentes áreas profissionais: Nelson Pérez, Ignacio Lemmo e Matías Lambrese. Juntos criaram a Agrojusto, uma plataforma de comercialização que “conecta de forma direta, justa e eficiente os atores da cadeia”. A ideia: diminuir o custo dos intermediários.
Fernanda, CEO da Agrojusto, junto a pequenas produtoras e usuárias da plataforma.
“O app está funcionando desde maio. Já temos mais de mil usuários com lojas virtuais, de produtores a comércios varejistas”, explicou Fernanda, CEO da startup que funciona por assinatura mensal. “Vamos transformar o mercado de alimentos da América Latina”, disse.
Para potencializar seus negócios e ajudá-los a desenvolver meios de vida mais equitativos, acompanham os produtores com webinars e capacitações.
Agrojusto, uma startup de Mendoza que busca mudar o sistema alimentar e foi premiada pelas Nações Unidas.
“Além disso, a Agrojusto faz bem ao meio ambiente, ao produzir de forma mais ecológica; à sociedade e ao setor econômico, porque os pequenos agricultores e intermediários recebem muito pouco do preço final”, comentou Julieta Porta, que trabalha no modelo de negócios da plataforma.
É gratificante, contaram, ver os produtores “empoderados” ao resolver suas necessidades. Como se não bastasse, os anos de trabalho foram coroados com o reconhecimento das Nações Unidas, que os premiou como uma das “50 melhores pequenas empresas do mundo”.
Foram escolhidos entre 2.000 empresas de 135 países. Eram a única PME argentina e receberam a menção na Cúpula da ONU sobre Sistemas Alimentares 2021, que acontece nesta quinta-feira, 23 de setembro, em Nova York, Estados Unidos.
PREMIADA. A Agrojusto foi reconhecida pelas Nações Unidas entre 2.000 empresas.
Nesta revolução alimentar, são um exemplo para outras PMEs. “Há uma busca massiva por deixar para trás uma longa história de individualismo e competição. Estamos entendendo que é preciso reconstruir um tecido comunitário. Todos queremos viver e trabalhar com dignidade”, opinou Daniel Cacciutto, integrante da cooperativa Más Cerca es más Justo.
Para mudar a forma de consumo e produção, afirmaram, restam 9 colheitas, 9 anos. “Sabemos que, para transformar este mercado de alimentos, temos que fazer isso juntos”, sentenciou Fernanda.
Agora, Miguel Ángel e Mónica começaram a vender seus alimentos pelo novo canal digital e estão em contato com uma comunidade. Eles têm esperança na transformação. E os demais produtores também.

